As cidades e o meio ambiente

Impossível separar

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lixo extraordinário

“Jô, posso fazer uma correção? A gente não é catador de lixo, é catador de material reciclável. Lixo é aquilo que não tem aproveitamento, material reciclável sim.”

Assim começa a entrevista do Presidente da Associação de Catadores de Materiais recicláveis de Jardim Gramacho (ACAMJG), Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, ao apresentador Jô Soares. Essa cena faz parte do documentário Lixo Extraordinário, que concorre ao Oscar na categoria de melhor documentário e traduz a importância social da figura do catador.

O documentário mostra o trabalho desenvolvido pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz com os catadores de Jardim Gramacho, considerado o maior “aterro sanitário” da América Latina. A partir dos materiais coletados pelos catadores e tendo alguns deles como personagens, Muniz fez fotografias belíssimas, que renderam exposições com recordes de público. Um dos quadros, que reproduzia A Morte de Marat (1793), do francês Jacques-Louis David, foi vendido num leilão por aproximadamente R$100 mil. Todo o dinheiro arrecadado com a venda foi direcionado para associação.

No meio da montanha de lixo despejada pelos caminhões, personagens e histórias se misturam com os materiais que são o sustento de suas vidas. Diferente de outras produções que possuem o lixo como temática, o documentário evidencia a importância social do catador. É a partir do trabalho dessas pessoas que toneladas de materiais recicláveis são reintroduzidos no ciclo produtivo, economizando preciosos recursos naturais, além de contribuírem diretamente para aumento da vida útil dos aterros sanitários, que no caso do Jardim Gramacho, está com os dias contados. Personagens com histórias comoventes, mas também com pitadas de humor, fazem parte do roteiro, que possui um viés humanista de contar histórias.

A obra, que apesar de ser filmada no Brasil, de ter como protagonista um artista brasileiro e ter coprodução com o Brasil, concorre ao Oscar como filme britânico, mas isso é assunto para uma próxima conversa. Lixo Extraordinário cumpriu seu papel social, convidando seus espectadores a olharem para o lixo de uma maneira diferente, gerando reflexões sobre reciclagem, consumo consciente e inclusão social.

Confira o trailer do documentário


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Avanço na gestão do lixo requer trabalho estratégico de informação

Isadora Camargos*

A nova legislação sobre os resíduos sólidos urbanos, entre outras tantas normas, afirma que lixo é um problema de todos. O que se pretende é uma mudança de comportamento de toda a sociedade para que, desde a casa de cada um até a destinação correta e as formas de geração de renda, o lixo seja devidamente encaminhado e tratado. Tarefa difícil. No Brasil, 64% dos municípios ainda despejam o resíduo em lixões sem nenhum tratamento. Em Minas Gerais, que desde 2002 adota o Programa Minas sem Lixões, esse índice é de cerca de 40% dos municípios. E para quem ainda convive com um lixão sem grande repulsa, a pergunta é o que serve de argumento para uma mudança radical de comportamento, o que inclui menos desperdício, coleta seletiva em casa, reaproveitamento, cobrança de postura dos governantes, enfim, uma mudança de concepção sobre tema.

Os urubus e o mau cheiro costumam ser bons argumentos, mas não é à toa que os lixões normalmente ficam longe dos centros urbanos. A lei pode prever multa. Os governos podem dar incentivos e verbas. Os catadores de resíduo podem argumentar que ali encontram riquezas. Mas nada disso é garantia de mudança de gestão ou comportamento. Normalmente, as pessoas precisam acreditar, ter uma convicção, para mudar de postura.

É aqui que a informação faz toda a diferença. A questão é saber qual a organização desse conjunto de informações deve ser dada para cada público para que todos encontrem os seus interesses e construam suas convicções. Numa região pobre, onde os problemas de infra-estrutura orientam, influenciam e às vezes determinam as ações cotidianas, é difícil convencer um governante a separar parte da restrita verba para fazer a gestão do lixo. Por outro lado, numa região de bom desempenho econômico, costuma ser complicado convencer um município a se consorciar com os vizinhos e assim possibilitar que toda a região faça a gestão adequada do lixo. Para cada caso, é preciso conhecer a cultura local e a partir daí encontrar os argumentos adequados e decidir a melhor forma de informar. Só assim será fortalecida a percepção de que as questões ambientais e sociais estão interligadas.

Talvez um município mais pobre precise compreender a estreita relação entre gestão do lixo e agricultura, para saber que não deve contaminar o solo, que a compostagem doméstica traz benefícios para as famílias, que a reciclagem gera renda, e que a coleta seletiva costuma ser mais barata que a convencional porque há uma significativa redução do volume de lixo gerado. E o município próspero precisa compreender que a água contaminada pelo lixo ao lado leva as impurezas para os seus cidadãos e que pensar regionalmente pode possibilitar uma estruturação ambiental mais adequada com benefícios para todos. A gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos é um desafio enorme para todos, e a informação estratégica de qualidade é um dos pilares para essa conquista.

Publicado no Estado de Minas dia 15 de maio de 2010

Equilibrar

Equilíbrio, antes de qualquer outro conceito ou prática, é respeito.